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photo: Sonia Bischain

walnerdanziger@gmail.com

   Born in São Paulo. He is a writer, playwright and director of theater. Founder of Malungos de Pedra (former Pixaim Art Group), editor of the independent label Edições Incendiárias, he is the author of the books: Confraria dos Perdedores & Outras Crônicas de 2, Ainda Cometo um Samba (novel), Giletenamão domacaco (short stories and other narratives), Entre a Fome e a Fúria (short stories, essays and poems) and Teatro Vol.1- Três Peças.

    Nasceu na cidade de São Paulo. Escritor, dramaturgo e diretor de teatro. Fundador do Coletivo Malungos de Pedra (ex - Grupo de Arte Pixaim), editor do selo independente Edições Incendiárias, é autor dos livros: Confraria dos Perdedores & Outras Crônicas de 2ª, Ainda Cometo um Samba (romance) Giletenamãodomacaco (contos e outras narrativas), Entre a Fome e a Fúria (contos, crônicas e poemas) e Teatro Vol.1- Três Peças

 
 
Street Stars

   The classic match was over, the lights went off and the crowd went home.

   Sunday, special day of Brazilian futebol, I write listening to the guys from the radio stations enthusiastically commenting, information and probabilities. On TV, the nefarious show, pernicious of repetition. We must end the endless replays, the weed that slowly transforms the culture of our futebol. Not much  talk of moves, dribbling, the referee as the protagonist of the show and where are the stars? Match analysis and the discussion becomes a meager feast served of statistics and hawk-eye. The same play repeated to exhaustion. Useless. The referee saw it once and made his final call, done. Boring, boring.

 

   I did not see it on the screen, or listen to the radio no live interview with Deva, Cilinho or Tuta. I am from the street match times and I do not see the kids running cheerfully after the ball. I watch taco game, kites, but not soccer and I pose a challenge: After reading this prose get up, open the window and check if in front of your house there are a bunch of boys in uproar and cries of: Goal! Foul! Our ball!

 

   Deva, Cilinho and Tuta were the stars of my street. Guys of our age who used to make us jealous. Deva played barefoot and was the king of dribbling and rainbow soccer trick. Sobrero flicks, with the ease of a hi greeting and everything pointed that he would be sucessfully because his older brother played in Corinthians at the lower divisions. Cilinho was my mom’s student in the public school and he used to drive defense players crazy with his dribbling and spectacular goals. Tuta, the youngest among the three.  Anger that, crap players we were,  felt for the young one who proved to be invaluable in the pickup soccer and was also always the first one to be picked.

   Who warns is the old saying: Many are called but few are chosen, and the motto that applies to soccer also goes for actors, writers, musicians, for beautiful people. There are so many and how many actually enjoy the laurels, even if temporarily?

 

   The radio coverage is coming to an end as well as the story and I have not heard of Deva, Cilinho or Tuta. At dawn, Deva will fix his hair and white beard and one more time he will pull his cart with junk that the neighborhood trashed. Maybe he will pull weeds from a yard, load some construction debris to a container. Cilinho, will drive his taxi through the fierce city and Tuta, our youngest who was sent to jail for many years in the south after a robbery gone wrong, will wander around the streets of the Villa begging for some money to buy a lunch box and its cheap everyday craziness.

SAO PAULO, 05 / 04 / 2013

Craques da rua

     Acabou o clássico, as luzes se apagaram e a multidão pegou o caminho da roça.
 

   Domingo, dia nobre do futebol brasileiro, escrevo ao som dos camaradas do rádio desdobrando-se em comentários, informações e probabilidades. Na TV o festival nefasto, pernicioso da repetição. É preciso acabar com os intermináveis replays, erva daninha que aos poucos vai transformando a cultura do nosso futebol. Pouco falam de jogadas, dribles, seu juiz como protagonista do espetáculo e cadê os craques? Análise de jogadas e a discussão está posta pra um banquete mirrado regado a estatísticas e tira-teimas. O mesmo lance repetido à exaustão. Inútil. O árbitro viu uma vez só e deu seu veredicto, fim. Chato, chato.
 

   Não vi na tela, nem ouvi ao microfone do rádio nenhuma entrevista com o Deva, o Cilinho ou o Tuta. Sou do tempo do jogo na rua e não vejo mais a molecada correndo em festa atrás da bola. Espio o taco, pipas, mas futebol não e lanço um desafio: Depois de ler essa prosa levante-se, abra a janela e confira se em frente à sua casa tem um bando de meninos em algazarra e gritos de: Gol! Falta! É nossa!
 

   Deva, Cilinho e Tuta eram os craques da minha rua. Caras da nossa idade que nos matavam de inveja. Deva jogava descalço e era o rei dos dribles e carretilhas. Chapéus, com a facilidade de um bom dia e tudo indicava que iria longe porque seu irmão mais velho jogava nas divisões de base do Corinthians. Cilinho era aluno da minha mãe na escola pública e enlouquecia marcadores com fintas e gols antológicos. Tuta, o caçula entre os três. Raiva que, pernas de pau, sentíamos do pivete que nas peladas era indispensável e sempre o primeiro a ser escolhido.
 

   Quem manda avisar é o velho ditado: São muitos os chamados e poucos os escolhidos e a máxima que cabe ao futebol vale também pra atores, escritores, músicos, pra gente bonita. São tantos e quantos realmente desfrutam os louros da glória, mesmo que passageira?
 

   A cobertura da rádio vai chegando ao final assim como a crônica e não ouvi falar do Deva, do Cilinho ou do Tuta. Na alvorada, Deva ajeitará cabeleira e barba branca e por mais um dia vai puxar sua carroça com os bagulhos que a vizinhança não quer mais. Talvez cortar o mato de um quintal, carregar entulho de alguma construção até a caçamba. Cilinho, pilotar seu táxi pela cidade feroz e Tuta, o nosso caçula que ficou preso por muitos anos no sul depois de um assalto mal sucedido, vagar pelas ruas da Vila atrás de um trocado pra dichavar um marmitex e sua loucura barata de todos os dias.

SÃO PAULO, 05 / 04 / 2013

Walner Danziger

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro Confraria dos perdedores e outras crônica de 2ª (2015)

Resurrection

   No one hears the surdo or the snare drums, much less the tambourines. Empty court, the singing went off, the Baianas do not twirl and the beautiful black lady who promised to give her number went home and no one has an idea of where she lives, nor her name to be searched on Facebook.

 

   The carnaval was left behind and where did the majesty go? If he is not a king, a good prince known to all, with his own light, importance and perks. On the days devoured by the calendar, an average guy with an ordinary life, an ordinary family, an ordinary job, bills, addictions, hatred and common obsessions. Anonymous. A name, a number, face, a bow-legged body taking up space in the gray jungle waiting for a new storyline, a voice, a beat, a new miracle that projects him again into existence.

 

   He follows schedules and rules, fucked over, and corrupted by the boss, he does not have no muse from the carnaval parade, or the magazine's cover muse on his bed. No glare, energy, the João Ninguém that Noel sang about. Away from the pavilion and the samba-school colors he does not lead cheers or gasps, what a shame: he wants to exist.

 

   On soccer, he is champion, by extension. The team is the champion. The players and the coaching staff are champions. He is also good, but not like the samba- school where he can yell goal and make sure that if he did not push the ball inside, he at least gave the pass.

   In samba he is the one. On the streets, who? Never seen or heard of. If he thinks too much, he goes crazy. In short, he swallows his green frog, oily, indigestible, from the shadows he awaits with shortness of breath, heaving chest and a sad look that directors send for. The call for a new fight, skilled soldier, Dionysian hero of monumental battles.

 

   Until dawn announces his resurrection, he will drag his life to the corners, the city's alleys and backstreets of his ordinary life, his common family, his ordinary job, his bills, addictions, hatreds and common obsessions.

SAO PAULO, 23 / 02 / 2015

Ressureição

   Ninguém ouve o surdo nem caixas, muito menos os tamborins. Quadra vazia, o canto silenciou, as baianas não giram e a preta bonita que prometeu dar o telefone voltou pra casa e nem desconfia onde ela mora, sequer seu nome pra caçar no facebook.
 

   O carnaval ficou pra trás e onde foi que se meteu sua majestade? Se não é rei, um bom príncipe conhecido por todos, dotado de luz própria, importância e regalias. Nos dias que o calendário devora, sujeito comum com vida comum, família comum, emprego comum, contas, vícios, rancores e taras comuns. Anônimo. Um nome, um número, um rosto, um corpo cambaio ocupando espaço na selva cinzenta à espera de um novo enredo, uma voz, uma marcação, um novo milagre que lhe projete novamente à existência.
 

   Cumpre horário e regras, esculhambado e corrompido pelo patrão, não tem a seu lado na cama nenhuma musa da passarela tampouco a capa da revista. Sem brilho, energia, o João Ninguém que Noel versou. Afastado do pavilhão e das cores da escola não provoca aplausos nem suspiros, mas que pitomba: quer existir.
 

   No futebol é campeão por tabela. O time é o campeão. Os jogadores e a comissão técnica são campeões. Também é bom, mas não como na escola onde pode gritar gol e ter certeza que se não empurrou a bola pra dentro, deu o passe.
 

   No samba é o tal. Nas ruas, quem? Nunca viram nem ouviram falar. Se pensar demais, endoida. Na miúda, engole seu sapo verde, oleoso, indigesto e dos encostos, das sombras espera com respiração curta, peito arfante e olhar baixo que a diretoria mande chamar. Convocação a uma nova luta, soldado gabaritado, herói dionisíaco de batalhas monumentais.
 

   Até que alvorada anuncie sua ressurreição, arrastará pelas esquinas, pelos becos e vielas da cidade sua vida comum, sua família comum, seu emprego comum, suas contas, vícios, rancores e taras comuns.


SÃO PAULO, 23 / 02 / 2015

Walner Danziger

Text originally published in the book | Texto originalmente publicado no livro Confraria dos perdedores e outras crônica de 2ª (2015)