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photo:Irineu Junior

sacolagraduado@gmail.com

Sacolinha (Ademiro Alves de Sousa) is graduated with a degree in Literature. Author of novels and short stories. Throughout his career he has been on television programs such as Jô (TV Globo), Provocações, Metrópolis e Manos e Minas (TV Cultura). He has also received many awards for his books and projects. His most recent book with a serie of short stories is Brechó, Meia noite e Fantasia (2016).

    Sacolinha (Ademiro Alves de Sousa)  é formado em Letras. Autor de romances e livros de contos. Em sua trajetória já esteve em programas de televisão como Jô (TV Globo), Provocações, Metrópolis e Manos e Minas (TV Cultura). Ganhou vários prêmios por seus livros e seus projetos. Seu mais recente livro de contos é Brechó, Meia noite e Fantasia (2016).

 
 
Me, prostitute?

   Fuck no. The ugliest name they’ve found for us. Couldn’t they find anything a little better? They say this name has something to do with Marcel Proust, the one of lost time. If it were so, ok, but why? Could it be that he sold pleasure, too?

   I’ve heard that Proust’s writings make people go crazy... Ah, yes, it’s true, that must be why, we also make men go crazy. There are some that arrive here with their heads down, with their self-esteem at their feet, poor things, we see sadness in their little eyes. When it’s time to begin, we turn things around. I have gone through some stories that you wouldn’t believe. There are some that don’t know what to say, say they love me, that I am everything in their lives, beautiful, a hottie, a knockout... And the guy barely knows me.

   I get invitations all the time; one who wants to move in together, another who wants to date, I’ve even been proposed to. You wouldn’t believe it. We do so much for society and it turns around and gives us this ridiculous name: “Prostitute”.

Did you know Cora Coralina said she was my sister? Yeah?

You didn’t read about it?

   You call me a prostitute but you don ́t even read. I read, and don’t think that I am a fan of those little newsstand books, the Biancas, Julias and Sabrinas, these I leave for the depressed ones.

 

   My reading is a different one. Yeah, as I was saying, Cora Coralina wrote poetry for us,“Woman of the streets, my sister”, in this poem she says everything about us, because of that people of all languages should read Cora’s poetry, so they’ll learn how to respect us, who do so much for society. You’re laughing, aren’t you? Then start taking note of all the favors that we do, take note of all the tragedies that we avoid.

Rapes. We prevent many.

   There are some sex addicts around, all insatiable, and the worst thing is that they are all ugly, poor guys. Then you can imagine if we didn’t exist, the women wouldn’t pay any attention to them and they would assault them. Rape, this is indeed what would happen. My sister Cora poetizes all that in her poetry.

   Once in a while some little stressed ones come looking for relief, and all of them with rings on their fingers. They come with a fury that if y ou aren’t able to hold them up, they will tear you apart. It is true, they get nervous and stressed and come to take it out on us. When everything is over they clean up, pay and leave, only come back when the adrenaline rises again. I am not complaining, just making an observation.

   Ah, yes, I just remembered, the Census always comes to poll us. Is that really the Census?

Ah, why should I know, they are some people who come here saying they are from god knows where. They ask us how many men we have sex with per day, who are the men who solicit us, among other things. They don’t ask about the person’s color, but they should. This could be a suggestion, don’t you think?

Most of our clients are white, did you know that?

In second place are the blacks and in third the japonese.

   But the hottest ones are the blacks; they have a firm body, a certain conviction when they make love. Regarding the dick there is no need to say anything, hard and amazing to take, it’s so big when it penetrates us it feels like it’s going to go straight through us. This is not only my opinion, no, I’ve seen many women around saying that and among the people with whom I work with it is the consensus.

   Now the name prostituta has been shortened to puta, and do you know that even an oath has been created with our name?

To call someone “son of a bitch” is an offense. Really, guys?

Puta is a synonym of warrior woman, strong and fearless. Those who are called a “Puta” should be proud, because we do so many things, including even things that men can’t handle... Just imagine, sometimes we have sex with eight or ten clients in a day, we can put up with the drunken breath and a fat guys on top of us, sometimes we have not a single drop of desire or disposition, but even so we make sure the client is satisfied.

   I hate hearing women say we have an easy life. Easy my ass, why they don’t join us?

If I could I would find a humble and handsome guy and go live with him in a small house somewhere in the countryside, have kids and be happy with them. But I can’t, I chose this profession and I have to honor it, I can’t turn back, and besides, I provide a great service to society like I said. I just don’t like that name, that damned name.

I am not a prostitute.

Eu, prostituta?

   Porra nenhuma. Nome mais feio esse que arrumaram pra gente. Não tinham um nome melhorzinho não?

 

   Dizem que este nome tem a ver com o Marcel Proust, aquele do tempo perdido. Hum, se for mesmo então tá bom, mas por quê? Será que ele vendia prazeres também?

   Ouvi dizer que os escritos do Proust levam a pessoa à loucura... Ah, sim, é verdade, deve ser por isso, a gente também leva o homem à loucura. Têm uns que chegam aqui de cabeça baixa, com a auto-estima lá no sapato, tadinho, a gente vê no olhinho dele a tristeza. Na hora do programa a gente reverte a situação.

   Já passei por cada uma, só vocês vendo mesmo. Há uns que não sabe nem o que diz, fala que me ama, que eu sou tudo na vida dele, linda, gostosa, tesão... E o cara nem me conhece. Recebo convites o tempo todo; é um que me chama pra morar junto, outro que quer namorar, até convite de casamento eu já recebi. Vê se pode. É tanta coisa que a gente faz pra sociedade e ela vem com um nome ridículo, “Prostituta”.

Cora Coralina declarou ser a minha irmã sabia?

É, você não leu não?

   Chama-me de prostituta e você mesmo não lê. Eu leio, e não pense que sou fã desses livrinhos de banca de jornal, as Biancas, Julias e Sabrinas, isso eu deixo pras depressivas.

 

   Minha leitura é outra. Pois é, como eu estava falando, a Cora Coralina fez uma poesia para nós, “Mulher da vida, minha irmã”, nessa poesia ela fala tudo sobre a gente, por isso acho que todas as pessoas de todas as línguas devem ler esta poesia da Cora, assim vão aprender a respeitar a gente que muito faz pra sociedade. Você ri é. Então vai anotando aí os favores que nós fazemos, anota aí as tragédias que evitamos.

Estupros. Evitamos muitos estupros.

 

   Chegam uns viciados em sexo por aqui, tudo insaciáveis, e o pior é que são tudo feios, coitados. Aí você imagina se nós não existíssemos, as mulheres não dariam bola pra eles e iam pegá-las a força. Estupro isso sim que iria acontecer. A minha irmã Cora poetiza diz isso na sua poesia.

 

   De vez em quando chega uns estressadinhos querendo se amenizar, e tudo de aliança no dedo. Eles vêm com uma fúria que se você não se segurar eles te rasgam toda. É mesmo, eles ficam nervosos e estressados e vêm descontar na gente. No final de tudo se limpam, pagam e vão embora, só voltam quando a adrenalina sobe de novo. Não estou reclamando não, só fazendo uma observação.

   Ah, sim, lembrei, o CENSO vive atrás da gente querendo fazer pesquisa. É o CENSO mesmo?

Ah, sei lá, são umas pessoas que chegam aqui falando que são de não sei de onde. Perguntam com quantos transamos por dia, quem são os homens que nos procura e outras coisas. Só não perguntam a cor, deviam perguntar. Fica aí uma sugestão né?

Os brancos é que nos procuram mais sabia?

Em segundo lugar são os negros e em terceiro são os japoneses.

 

   Mas os mais gostosos são os negros, eles têm um corpo firme, uma convicção na transa, O cacete então nem se fala, duro e gostoso de pegar, quando entra na gente parece que vai atingir o outro lado de tão grande que é.

Isso não é só eu que penso não, pelo menos já vi muitas mulheres por aí falando isso e no meio que trabalho a opinião é coletiva.

   Agora o nome “Prostituta” foi abreviado por “Puta”, e não é que inventaram um palavrão com nosso nome?

Chamar alguém de “filho da puta” é ofensa. Que que é isso pessoal?

Puta é sinônimo de mulher guerreira, forte corajosa. Quem é chamada de “Puta” tem é que ficar lisonjeada, pois a gente faz tanta coisa, coisa inclusive que homem não aguenta viu... Imagina aí, às vezes transamos com oito ou dez clientes por dia, aguentamos hálito de cachaça e homem pesado em cima de nosso corpo, às vezes estamos sem um pingo de disposição e tesão, mas mesmo assim deixamos o cliente satisfeito.

   Odeio ouvir as mulheres falando que somos de vida fácil. Fácil o escambau, por que elas não vêm pra essa vida então?

Se eu pudesse arrumava um homem humilde e bonito e ia morar numa casinha qualquer no interior, fazer filhos e viver feliz com eles. Mas não posso, optei por essa profissão e tenho que honrá-la, não posso voltar atrás, além do mais eu presto um grande serviço à sociedade como já falei. Só não gosto desse nome, maldito nome.

 

   Eu não sou prostituta.

Sacolinha

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro 85 letras e um disparo (2006)

The night invites you

Mother Africa, son Brazil

The milk of the world lived in your breasts

Perfect nipples nursed by the whip.

Your belly, was always empty

Creating all the history of this thankless world

If to be a mother is a gift from God

Then Africa is the nursery in which He was born.

Your children, gifted with slyness

Hurled various cultures at the world.

The recent night brings the echo of the soundtrack of those times

Drums assembled by the hands that made the world.

Machine guns, rifles and chemical weapons

Will rest on your lap to share space with red roses.

And unrequited loves will be content by your side

Dirty hearts that reminds me of stones

Hyperbole of accurséd heritage, that wets and drips in little bellies

Like this, multiplying a doomed and ill-lived life.

A Life that feeds the feijoada, life that dances carnaval

Lives of injured hands playing instruments... Umbandacandomblé.

Bring me the bottle with the liquid of Northeastern culture

I am going to get drunk from that pure and natural syncretism.

Night! Abstract term that absorbs the African feeling

Mother Africa, father africa, africa.

Synonym of black.

Acclaims its race-hymn

And this oration flies to the ears of these evil spirits

Heart without culture.

Africa! Im the spotlight-stealer

Who prods your calm with egocentric words

Come mother, dance with me todays drumming.

Because at our night parties, your entrance is free

So swing, in today's drumming.

And that each of your gestures has a note of contempt

Come mother, because the night... Invites you to dance.

A noite te convida

África mãe, Brasil filho

O leite do mundo habitou as suas tetas

Mamilos perfeitos acalentados de açoite.

Seu ventre, sempre foi livre

Gerando toda a história desse universo mal agradecido

Se ser mãe é dádiva de Deus

Então a África é o berçário onde Ele nasceu.

Suas crianças, dotadas de grande picardia

Lançaram ao mundo variadas culturas.

A noite recente, traz o eco da trilha sonora daquele tempo

Tambores confeccionados pelas mãos arquitetas do mundo.

Metralhadoras, fuzis e armas químicas

Deitarão no seu colo para dividir o espaço com as rosas vermelhas.

E os amores não correspondidos, se contentarão ao seu lado

Corações sujos que me lembram as pedras

Hipérbole da herança maldita, que umedece e goteja em pequenos ventres

Multiplicando assim, a desgraça e mal vivida vida.

Vida que alimenta a feijoada, vida que swinga o carnaval

Vidas de mãos feridas que tocam os instrumentos... Umbanda, candomblé.

Tragam-me a garrafa com o líquido da cultura nordestina

Vou me embriagar desse sincretismo puro e natural.

Noite! Termo abstrato que absorve o sentimento africano

África mãe, áfrica pai, áfrica.

Sinônimo de negro.

Ovaciona o seu hino de raiz

E que a recitação voe até a audição desses espíritos maléficos

Âmago sem cultura.

África! Sou larápio de cena

Que cutuca a sua bonança, com palavras egocêntricas

Venha mãe, dance comigo o batuque atual

Porque nas nossas festas noturnas, a sua entrada é franca

Então ginga, o batuque atual.

E que cada gesto teu, tenha um pedaço de desdém

Venha mãe, pois a noite... Te convida pra dançar.

Sacolinha

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro Cadernos Negros 28 (2005)