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   Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) is the author of the books De passagem mas não a passeio (2006/2008),  Onde escondemos o ouro (2013) and Zero a zero: 15 poemas contra  o genocídio da população negra (2015).

   She is a PhD student at the University of São Paulo and editor of publisher Me Parió Revolução.

  Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é autora dos livros De passagem mas não a passeio (2006/2008), Onde escondemos o ouro (2013) e Zero a zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra (2015).

   Doutoranda em Letras pela Universidade de São Paulo e editora do selo Me Parió Revolução.

photo:  Eduardo Mota

 
 
Brave new deception
Admirável novo engano

"I know what hunger is

The scare in the IML

I know by its name

Who I offer the candles to"

Clã Nordestino

"(...) One does not die

once, nor at once.

Many lives remain

 to be consumed

in the reason of failed encounters

of our blood in the bodies

where it goes divided "

A mesa  - CDA

Maybe one day we wake up

and the deceased does not look at us

from the door children blow

bubbles.

 

However, strangely,

our parcel does not return

the stupid bird

seduces you by wings without gold.

Aristides is another one.

And the many boys kept

so well that they do not even grow older

they also multiply...

Meanwhile

we keep in pixels

few, which is to save space

in keepable moments

in gigabytes

visible only in smaller screens

an entirely world opens up

 in the palm of your hand.

(This new android soul

and our whole pocket vision

do not make a revolution).

"Eu sei o que é a fome

O susto no IML

Conheço pelo nome

A quem oferto as velas"

Clã Nordestino

"(...) não se morre

ums só vez, nem de vez.

Restam sempre muitas vidas

para serem consumidas

na razão dos desencontros

de nosso sangue nos corpos

por onde vai dividido"

A mesa - CDA

Vai que um dia a gente acorda

e o morto não nos olha

da porta as crianças soltam

bolhas de sabão.

Entretanto, estranhamente, 

o nosso malote não volta

o pássaro estúpido

lhe emprenha de asas sem ouro.

Aristides é outro.

E os tantos meninos guardados

tão bem que já nem avançam em idade

multiplicam-se também...

Enquanto isso

guardamos em pixels

poucos, que é pra economizar espaço

os momentos guardáveis

em gigabytes

visíveis apenas em tela menor

um mundo inteirinho se abre

na palma da sua mão.

(Essa nova alma android

e a nossa visão toda pocket

não fazem revolução).

Dinha

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro Onde escondemos o ouro (2013)

Poem not much a poem

for the poor young man who was robbed three times his racism is justified

“Without a mask he didn’t seem so strange. He looked like a person. He looked like many people. Like the Brazilian population, this country that also wears a plastic mask to disguise the shame that it allows once in a while

to forget that here is the largest black population outside Africa.”

Cristiane Sobral

We are blacks.

In masculine and feminine.

We are in many places.

In the bus driver who takes us back and
                                 [forth through the veins of the city.

In the telemarketer.

In the supermarket cashier.

In the maid.

In the forgotten writer.

In metallurgy.

In the house wife.

In the guy who delivers the mail.

Even if we don’t know.

In feminine and masculine.

We are in many places.

Undervalued.

But this doesn’t hurt at all.

What bothers is to hear the idiots ruminating

                                                                 [spasms:

Three blacks robbed him.

Therefore,

blacks are good-for-nothings.

What bothers is to have to repeat like a crow

that the guy didn’t see (staring eyes on the

                                                               [barcode):

the driver that took you home

the one who answered your call

the one who gave you the change

the one who washed your floor, your cry

the verses

the maternal caring.

Three blacks robbed you

and he only saw

what the idiots see

what the TV screen explains

the racism injected in the brain just like a horse

trampling on the intelligence of the poor

blind young man and robbed.

Poema pouco poema

para o pobre rapaz que foi roubado três vezes e assim justifica o seu racismo

"Sem máscara ele até que não era tão estranho. Parecia gente. Parecia com tanta gente. Com toda a população do Brasil, esse país que também usa máscara de plástico para disfarçar a cara de pau que lhe permite vez em quando esquecer que está aqui a maior população negra fora da África."

Cristiane Sobral

Somos negras.

No feminino e no masculino.

Estamos em muitos lugares.

Na motorista do ônibus que nos leva e nos traz

                                             [pelas veias da cidade.

Na atendente de telemarketing.

Na caixa de supermercado.

Na empregada doméstica.

Na escritora esquecida.

Na metalurgia.

Na dona de casa.

No rapaz que entrega as cartas.

Ainda que não se saiba.

No feminino e no masculino.

Estamos em muitos lugares

Pouco valorizados.

Mas isso não dói em nada.

O chato é ter que ouvir os trouxas ruminando

                                                                  [espasmos:

Três pretos lhe roubaram.

Logo,

pretos são safados.

O chato é ter que repetir feito gralha

o que o rapaz não viu (olhos fixos no código de

                                                                       [barras):

a motorista que lhe levou pra casa

a que lhe atendeu a chamada

a que lhe deu o troco

a que lavou o chão, seu choro

os versos

o cuidado materno.

Três pretos lhe roubaram

e ele só viu

o que veem os otários

o que a telinha explica

o racismo injetado no cérebro como um cavalo

pisoteando a inteligência do pobre

rapaz cego e roubado.

Dinha

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro Zero a zero - 15 poemas contra o genocídio da população negra (2015)