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    Alessandro Buzo is 43, born and raised in Itaim Paulista, east side of São Paulo.
    In 2000 released his first book "O Trem – baseado em fatos reais." He is the author of another 11 books and also literary collections.  Host and creator of Sarau Suburbano, which takes place on Tuesdays in the Livraria Suburbano Convicto.

    Alessandro Buzo tem 43 anos, nascido e criado no Itaim Paulista, extremo da zona leste de São Paulo.
   No ano de 2000, lançou seu primeiro livro “O trem - Baseado em fatos reais”. Escreveu outros 11 livros, além de coletâneas e antologias.
É idealizador e apresentador do Sarau Suburbano, que acontece às terças na Livraria Suburbano Convicto.

photo: Jess Penido

 
 
DVD Player

   Nine people live in that four-room house, sharing bedrooms, the living room and kitchen. A small house, built a long time ago, everything about it is old. Many fights break out for any reason: Because of the TV channel/remote control, because of the mix, because someone wore someone elses clothes...

   The nine people that pile on top of each other in the house are Mrs. Lourdes, widow and mother of four children, three of them in the house — Beto, Serginho and Kelly, plus Bruna, Kellys daughter, who is seven-year-old. Carlão, widower of Meire, Mrs. Lourdes’ deceased daughter lives there too. He kept staying... and then he stayed for good. Rose, Betos girlfriends, Bibiane, who is the niece of Mrs. Lourdes, who camfrom the North for a short visit and also decided to stay. The last member of the family” is Toninho, brother of the deceased husband of Mrs. Lourdes, therefore, her brother in law. 

   To sleep is a chaos. In one of the bedrooms sleep Mrs. Lourdes, Bruna, Kelly and Bibiane, the niece; in the other, Beto and Rose in one bed, Serginho at the top of the bunkbed and Carlão under him. Toninho sleeps on the couch in the living room.

   Kelly bought the DVD player paying in installments, but since everybody watchedshe would kick a fuss on the day the montly payment was due. She would collect bucks from whoever had any, but the DVD player belonged to her. Toninho has almost nothing besides the clothes he wears, but he owns a .38 revolver that is kept in the drawer of Mrs. Lourdes’ nightstand.

   They live in a permanent conflict. When the toothpaste ends, when someone throws things around on the floor, when someone wants to watch the soap opera and someone else wants to watch soccer, when someone wants the bigger steak and the last person gets the smallest one. Nevertheless they keep living...

   Nobody has a job that stands out. Kelly works as a salesclerk in a Korean store in the Brás neighborhood that has no benefits. Toninho does McJobs. Serginho just smokes pot. Rose is a babysitter. Bibiane only cares about dating and Bruna is in the first grade. The only one with a full time job with benefits is Carlão, who is a gas station attendant. There is no shopping of the month for the entire family. Things are bought as they finish. Whoever has money tips in, always after a fight.

 

   Kellys DVD player was the only modern thing in the house; there is no stereo sound system (only an old small radio), computer nor car. But now they have the DVD player, status symbol for the family. They proudly go to the video store and the living room gets packed on days that there are good movies. They proudly talk about the movie they watched on the night before. They never were able to by a VCR, but now they have a DVD.

   Mrs. Lourdes tries to convince Toninho to sell his revolver and build his own bedroom, but Toninho says that the revolver is the familys protection.

   A day has broken on a beautiful sunny Sunday. On that day everyone had something to do in the morning. Mrs. Lourdes was going with Kelly and Bruna to a meeting about products. Toninho went to play soccer. Beto and Rose went to a rap event in the hood. Carlão was going to do some McJob on the free market. Bibiane had a date with her current boyfriend, who she met yesterday, and Serginho went to buy a Timão soccer jersey in the center of the neighborhood. One left, and then another, and one more... nobody can really tell who was the last to leave or who was the first to arrive. They start leaving and then started coming back. Only Carlão has not returned home because he was working at the free market. Suddenly someone screamed very loud:

 - Where is the DVD player?

   They all ran and the place where the DVD player used to be on the bookshelf was empty, it was gone. Everybody started talking at the same time. Kelly was crying and yelling:

 

 - I want my DVD player!!!

 

   In the middle of the commotion, Carlão arrived:

 - What is happening in here?

 - The DVD player has disappeared.

 - How did it happen?

 - It happened, god damned!

   And everybody started talking at the same time again. Mrs. Lourdes went to check and saw that Toninho´s .38 revolver was still in the drawer. The door had no sign of a forced entry.

 - Someone here did it — Mrs. Lourdes said, crying out.

   They all stayed quietly. She said that nobody had broken in, the dog (Brabão) was unleashed watching outside. Then, it must have been someone from here” that stole the DVD player.

 

   Since then, the mood in the house became unbearable, everyone suspected someone and nobody could point a finger, there was no evidence. During the private conversations, one accused another since there was a thieve” among them, they all were afraid of Toninhos revolver. The crook could grab the revolver.

   There was a heated conversation about the gun, during which the gun went from hand to hand, until it went off and almost hit little Bruna. Mrs.Lourdes decided to make herself responsible for the gun, thought about what to do with it and decided: sold it and bought a DVD player.

   Now the house had rules. Someone must always stay hom e, they never leave at the same time and everybody watches their most important possession that now belongs to everybody, despite Kellys protests, owner of the stolen DVD player, and to Toninho, owner of the sold gun.

   The house went to back to its routine and nobody ever found out how the DVD layer disappeared. But everyone remained suspicious about someone.

Aparelho DVD

   Naquela casa de quatro cômodos moram nove pessoas nos dois quartos, sala e cozinha. Casa pequena, construída há muitos anos, velha; móveis velhos também. Muita treta rola por qualquer motivo: Pelo canal da TV, por causa da mistura, porque fulano usou roupa do beltrano...

 

   As nove pessoas que se amontoam na casa são dona Lourdes, viúva e mãe de quatro filhos, três deles na casa – Beto, Serginho e Kelly, mais a Bruna, filha de Kelly, de sete anos. Mora também o Carlão, viúvo da Meire, filha da dona Lourdes que morreu. Ele foi ficando... e ficou. A Rose, namorada do Beto, a Bibiane, que é sobrinha da dona Lourdes que veio do Norte a passeio e ficou também. O último integrante da “Família” é o Toninho, irmão do falecido marido da dona Lourdes, logo, cunhado dela.

   Pra dormir é o caos. Num quarto fica dona Lourdes, Bruna, Kelly e a sobrinha Bibiane; no outro, Beto e a Rose numa cama, Serginho na parte alta de um beliche e Carlão na parte de baixo. Toninho dorme no sofá da sala.

   A Kelly comprou um aparelho de DVD à prestação, mas como “todo mundo assistia”, ela fazia um barraco nos dias de pagar o carnê. Pegava alguma grana de quem tivesse, mas o aparelho “era dela”. Toninho não tem quase nada além da roupa do corpo, mas tem um revólver calibre 38 que fica na gaveta do criado mudo da cama de dona Lourdes.

  Vivem em conflito permanente. Até quando acaba a pasta de dente, quando alguém deixa as coisas jogadas, quando um quer novela e o outro futebol, quando um quer o bife maior e o último sempre toma bica mesmo. Mas vão vivendo...

   Ninguém tem emprego que mereça destaque. Kelly é balconista numa loja de um coreano no Brás, mas não tem carteira assinada. Toninho faz bicos. Dona Lourdes é aposentada. Beto só estuda. Serginho só fuma maconha. Rose é babá. Bibiane só quer namorar e Bruna está na primeira série. O único com emprego fixo e registrado em carteira é o Carlão, que é frentista de posto de gasolina.  Não existe “compra do mês”. Compram tudo quando vai acabando. Dá dinheiro quem tem, sempre depois de uma briga.

 

  O aparelho de DVD da Kelly trouxe a única modernidade para a casa; não tem som (só um radinho velho), computador nem carro. Mas agora eles têm o DVD, símbolo de status da família. Vão à locadora orgulhosos e a sala chega a lotar em dias de filmes bons. Eles falam orgulhosos do filme que assistiram ontem. Nunca conseguiram comprar um videocassete, mas agora eles têm DVD.

   Dona Loudes vive dizendo para Toninho vender seu revólver e construir um quarto para ele, mas Toninho diz que é segurança para a família.

 

   Amanhece um belo domingo de sol. Nesse dia todos tinham algum compromisso pela manhã. Dona Lourdes ia com a Kelly e a Bruna numa reunião de produtos. Toninho foi jogar bola. Beto e Rose foram num evento de rap na quebrada. Carlão ia fazer bico na feira. Bibiane tinha encontro com o atual namorado, que arrumou ontem, e Serginho foi comprar uma camisa do Timão no centro do bairro. Foi saindo um, outro, mais um... Ninguém sabe dizer ao certo quem saiu por último e nem quem chegou primeiro. Foram saindo e depois foram chegando. Só quem não tinha retornado era o Carlão, que estava trabalhando na feira. De repente, um grito ecoou:

 

- Cadê o DVD?

 

   Todos correram e lá estava vazio o lugar do DVD na estante, o aparelho sumiu. Começou um barulho infernal, todos falavam ao mesmo tempo. A Kelly chorava e gritava:

 

- Eu quero meu DVD!!!

 

   No meio do tumulto, chegou o Carlão:

 

- O que está acontecendo aqui?

 

- O DVD sumiu.

 

- Como sumiu?

 

- Sumindo, porra.

 

   E todo mundo estava falando ao mesmo tempo outra vez. Dona Lourdes foi conferir e viu que o 38 do Toninho estava na gaveta. A porta não tinha sinal de arrombamento.

- Foi alguém daqui – disse dona Lourdes, gritando.

   Todos fizeram silêncio. Ela disse que ninguém tinha arrombado a porta, o cachorro (Brabão) estava solto. Logo, tinha sido “alguém daqui” que roubou o DVD.

 

   Desde então, o clima ficou insuportável, todos suspeitavam de alguém e ninguém podia cobrar nada, não tinha certeza. Nas conversas reservadas, um acusava o outro, uma fazia fuxico de outro e, como tinha um “ladrão” entre eles, todos estavam com medo daquele revólver do Toninho. O pilantra podia pegar o revólver.

 

   Discutiam acaloradamente sobre a arma, que passava de mão em mão, até que ela disparou e quase acertou a pequena Bruna. Dona Lourdes ficou responsável pela arma, pensou o que fazer com ela e decidiu: Vendeu e comprou um aparelho DVD.

 

   Agora a casa tinha regras. Sempre fica um na casa, nunca mais saem ao mesmo tempo e todos cuidam do seu maior bem, que agora é de todos, a pesar dos protestos de Kelly, dona do aparelho roubado, e de Toninho, dono da arma vendida.

   

   A casa voltou à rotina e nunca se descobriu como sumiu o DVD. Mas todos têm o seu “suspeito”.

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro Do conto à poesia (2011)

Christmas Lights

   Teles is a very suspicious drug dealer, lives his life in a fear adrenaline. He sells pot and powder in the alley where he grew up. Every time a client calls him he starts a fight:

- Come on, bro, just call me once, all the neighbors are watching, all rats. He looks around a thousand times before serving his client. This is his style, he is suspicious even of his own shadow.

- Some cops were asking about me — he said.

   All bullshit, or possibly marketing to make him look better than he really is? In reality, he is a micro-traffic dealer that started as an addict and then started selling. He bought about two ounces of pot and opened his firm about four years ago. Then, because of the demand and the profit he made, he added cocaine. His clients live mostly in the surrounding areas, nobody comes from so far to get drugs in the alley.

   In December, Teles bought an extra load. He wants to set the world on fire on Christmas and New Year’s. He has had these plans for a while, it has been a long time that he hasn’t seen the sea, since Mr. Jura stopped taking people on tours.

   But with the increase in the volume of the drugs, his suspicion has also increased, making him beat around the bush to sell to his clients. On the other hand, he wanted to leave the alley as soon as possible, because it was a blind alley, in the avenue in front, many cars passed by, including police cars.

   The alley has houses on both sides and a space in the middle big enough for a car. On the other side, in front of Teles’house, lives the quiet Mr. Almeida, his wife and their 13-year-old daughter.

 

   Mr. Almeida watched Teles grow up and lose his father, kill ed by the police, and then his mother, by an alcohol related disease. He saw the young man enter the world of drugs and start selling in the alley. He hated the bunch of drug addicts that this would bring in front of his house, but he wouldn’t say anything. He would advise his daughter and his wife to always lock the door and never open it to strangers.

   Today, Mr. Almeida brought some Christmas lights as requested by their daughter, to decorate the façade of their house as Christmas was approaching. He arrived from work and went to set up the lights. Teles was sleeping as he used to do every afternoon. His clientele stops by at night.

   It was 08:00 PM, and Teles woke up. Ten minutes after, the first client called him three times and he didn’t wake up, heavy sleeper. He served the client complaining:

- Come on, just call once, and look at all the neighbors watching.

   When it was 08:35, Mr. Almeida turned on the Christmas lights and his daughter was jubilant. Teles was leaving the bathroom and threw himself on the floor. The lights, that would go on and off, looked like a giroflex light of a police car, and he believed that the alley was taken by the police.

   He crawled to his bedroom, hid the drugs on the roof and broke out in a cold sweat. Now and then, he would take a peek and see the lights:

- The pigs won’t leave! Then that is when the panic started:

- TELES, TELES!!! - A regular client cried out.

- Motherfucker, he has been arrested and wants to rat me out!

   The entire night was like that. He stopped serving his clients, believing that they were trying to frame him. Morning broke and finally the night of terror ended. Teles, still suspicious, opens the door and bumps into Mr. Almeida’s Christmas lights. He felt like an idiot and thought about his loss.

   He wouldn’t ask the neighbor to pay because he would have to tell him about how he made a fool of himself. He let it go, and the next day, he explained to his clients:

- Yesterday, I had to go somewhere ...

Luzes de natal

   Teles é um traficante muito desconfiado, vive numa adrenalina de medo. Vende maconha e farinha no beco onde cresceu. Sempre que algum cliente chama ele sai brigando:

 

- Pô, mano, chama uma vez só, os vizinhos tão tudo de olho, tudo bico sujo.

 

   Olha mil vezes pros lados antes de servir o cliente. Esse é seu estilo, ele tem cisma até com a própria sombra.

 

- Uns polícia civil tavam perguntando por mim – dizia.

 

   Tudo balela ou será marketing para parecer maior do que realmente é? Na verdade, ele é um micro-traficante que de viciado passou a vender. Comprou  cinquenta gramas de maconha e abriu a firma longos quatro anos atrás. Depois, devido à procura e ao lucro obtido, colocou também cocaína. Seus clientes são quase todos das proximidades, ninguém vem de tão longe para pegar droga ali no beco.

 

   Em  dezembro, Teles comprou uma carga extra. Quer arrebentar no Natal e ano-novo, para passar uma semana no litoral. Faz tempo que tem esses planos, faz anos que não vê o mar, desde que o seu Jura parou de fazer excursão.

 

   Mas com o aumento do volume de droga, aumentou também a cabreiragem dele, que fazia uma novela para servir os clientes que, por sua vez, queriam sair logo do beco, porque este não tem saída e, na avenida em frente, passam muitos carros, inclusive viaturas.

 

   O beco tem casas dos dois lados e um espaço no meio sufisciente para um carro só. Do outro lado, em frente à casa de Teles, mora o pacato senhor Almeida, mulher e filha de 13 anos.

 

   O senhor Almeida viu Teles crescer e perder o pai, morto pela polícia, e depois a mãe, por doença decorrente do álcool. Viu o jovem entrar no mundo das drogas e começar a vender no beco. Odiava o monte de viciado que isso trazia para frente da sua casa, mas não se metia. Aconselhava a filha e a mulher a deixarem sempre a porta fechada e não abrir para desconhecidos.

 

   Hoje, o Almeida trouxe um jogo de pisca-pisca a pedido da filha, para enfeitar a frente da casa com a proximidade do Natal. Ele chegou do trabalho e foi instalar as luzes. Teles dormia como fazia toda tarde. A clientela aparece de noite.

 

  Deu 20h, Teles acordou. Dez minutos depois, o primeiro cliente, fora três que chamaram e ele não acordou, sono pesado. Servia o freguês reclamando:

 

- Pô, chama uma vez só, os vizinhos tudo olhando.

 

   Quando deu 20h35, o senhor Almeida ligou as luzes pisca-pisca e a filha ficou superfeliz. Teles saía do banheiro e se jogou no chão. As luzes, que acendiam e apagavam, pareciam um giroflex da patrulha, e ele acreditou que o beco estivesse tomado de policiais. Foi engatinhando até seu quarto, moqueou no telhado as drogas e ficou suando frio. De vez em quando, colocava a cabeça e via as luzes:

 

- Os malditos não vão embora!

   Aí foi quando começou o pânico:

- TELES, TELES !!!! – gritava um cliente de sempre.

 

- Maldito, tá enquadrado e quer me caguetar!

 

   Assim ficou pela noite toda. Não atendeu mais os clientes, acreditando que esses tentavam lhe incriminar.

 

   Amanhece e finalmente acaba a noite de terror. Teles, ainda desconfiado, abre a porta e dá de cara com as luzes pisca-pisca do senhor Almeida. Sentiu-se um idiota e contabilizou seu prejuízo. Não iria cobrar o vizinho porque teria que contar o seu mico. Deixou pra lá, e no dia seguinte, explicava aos fregueses:

 

- Ontem, tive que sair...

Text originally published in the book / texto originalmente publicado no livro Do conto à poesia (2011)